segunda-feira, 22 de junho de 2015

Gordo FDP!



Muito se aprende nos livros, mas o dia-a-dia é um livro aberto que nos ensina bem mais, basta ter olhos para lê-lo. E um café em uma padaria com amigos vale por muitas aulas.

E no sábado passado, quando eu frequentava minhas aulas de filosofia de padaria, aconteceu um caso interessante:

Um amigo, o Gordo, engraçado e inteligente, mas bastante sarcástico, saiu para fumar e continuamos nosso papo com outros amigos fumantes na rua. Não me lembro mais do assunto, até porque deles fica o sumo e não as palavras. Eles se entremeiam com chistes e anedotas.

Enfim, o Gordo e o Rochinha fumavam, eu e o Celso falávamos, quando passou uma senhora com o marido e dobrou a esquina. Nós nem teríamos notado sua passagem se ela não voltasse e abordasse o Gordo de forma agressiva: “O seu cigarro queimou minha blusa”.

Demoramos a entender o que acontecia. Seu marido ficava um passo atrás, constrangido. Afinal, éramos três e ele apenas um. E foi colocado na situação a contragosto.

A mulher repetiu o que havia dito, um pouco mais alto: “O SEU CIGARRO QUEIMOU A MINHA BLUSA”.

O Gordo tinha um olhar estranho, como se a mulher falasse Grego, Sânscrito ou outro idioma qualquer. Seu canto de boca esboçava um sorriso que eu não soube identificar de imediato se era de ódio, medo ou raiva. Ele deu um trago no cigarro, soltou a fumaça pelo nariz e de modo formal e lento, começou a falar, como se fosse um político ou orador de turma, parecia ler um texto pronto: “Minha senhora, por gentileza, gostaria que a senhora, e o senhor, – disse olhando ao marido –aceitassem as minhas mais sinceras desculpas”.

“Mas quem vai pagar pelo meu prejuízo?”, perguntou a mulher em tom desafiador.

“Quanto custa sua bela blusa?”, inqueriu o Gordo.

“Uns duzentos reais”.

O Gordo respirou fundo e continuou: “Eu estou sem esta quantia no bolso. Mas façamos o seguinte, compre uma roupa nova, mesmo que seja mais cara, e ligue-me para passar o número de sua conta que vou depositar o quanto antes”. Pediu licença por um instante, foi ao caixa da padaria, pegou  um papel e anotou o nome e número do celular.

E concluiu: “Eu vou viajar amanhã bem cedo. Volto apenas daqui um mês. Então,  por favor, ligue-me entre cinco e seis da manhã, pois depois não poderei lhe atender”.

A mulher contemplou o papel com os dados, agradeceu e saiu. Ainda ouvíamos ela argumentar com o marido: “Tá vendo. E você não queria que eu reclamasse... Você abaixa a cabeça pra tudo...”.

O Gordo pediu licença a nós e foi embora. Ficamos os três e mais alguns que se aproximaram comentando o assunto.

Nesta noite fui dormir com certa admiração do Gordo. Como foi fino e elegante. Acho que eu teria argumentado com a mulher, mas ele não, resolveu tudo com classe. Adormeci pensando nisso.

Acordei assustado de madrugada com meu celular tocando na sala. Corri para atender e do outro lado a voz dizia: “Seu Antonio. É Aparecida, a mulher da blusa. Conforme o senhor me pediu, estou lhe ligando bem cedo para lhe passar o número de minha conta...”. E eu gritei: “Gordo FDP!”.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Quatro Cinco Seis



-    Alô!
-    Laura? Gilberto. Tudo bem?
-    Que horas são?
-    Duas.
-    Da madrugada?! Aconteceu alguma coisa? Tá tudo bem?
-    Eu queria lhe pedir perdão.
-    Perdão?! Por quê? Ah! Tá perdoado.
-    Estou falando sério.
-    Eu também. A esta hora perdoo qualquer coisa.
-    Eu não queria lhe ter dito o que disse.
-    Esquece. Já faz tanto tempo. E agora é tarde.
-    Pra você me perdoar?
-    Não! Eu já disse que perdoo. É tarde da madrugada! Eu estava dormindo.
-    Então você me perdoa?
-    Perdoo!
-    Que bom! Eu não ia conseguir dormir se não falasse com você e você me perdoasse.
-    Acho que nem eu.
-    Como assim?
-    Deixa pra lá. Vamos dormir?
-    Agora acho que vou conseguir dormir.
-    Espero que eu também. Boa noite!
-    Boa noite.

-    Alô.
-    Laura? Imagino que você não tenha conseguido dormir depois de nossa conversa.
-    Oi. Que horas são?
-    Sete.
-    Tudo bem? Você me ligou ontem à noite, né?
-    Você não se lembra?
-    Vagamente. Eu estava dormindo. Depois dormi direto e ainda estou meio sonada.
-    Puxa!
-    Você queria me pedir perdão... Eu nem sei por quê.
-    Pelo que lhe disse quando a gente terminou.
-    Já faz tempo. Tá tudo bem.
-    Tá tudo bem mesmo?
-    O que houve? Por quê esse arrependimento repentino?
-    Tudo que eu lhe falei...
-    É. Na época fiquei muito magoada mesmo. Também você chegou para mim e disse que me olhava e não sentia mais nada. Ou seja que eu não era nada. Lembra?
-    Sim.
-    Até lhe perguntei se tinha outra e você falou que não. Fiquei perdida.
-    É. Mas tinha.
-    E por que você não falou?
-    Sei lá. Não tive coragem. Achei que você ficaria muito magoada.
-    É pior o que você me falou: que eu não era nada. Ser trocada por outra, tudo bem. Mas por nada!
-    Sei...
-    E o pior: Eu suportava várias coisas suas. Não leve a mal, mas você é meio complicado. No começo me ligava a toda hora, para saber onde estava, o que fazia. Morria de ciúmes à toa. De repente, para e não liga mais. Você nunca foi carinhoso, atencioso...
-    Puxa, Laura!
-    Sim. Você me tratava mal e eu, infelizmente, aceitava. E, é meio chato falar, mas mesmo o sexo era ruim. E, ainda assim, eu não servia para você! Foi difícil.
-    Pô! Eu ligo para pedir perdão e fica querendo me arrasar.
-    Não. Eu tô só contando como me senti.
-    Mas precisa falar que eu era ruim de cama.
-    Você que está dizendo isso.
-    Por que você nunca me disse isso? O que tinha de errado?
-    Você dava uma rapidinha e pronto. Quando eu tava começando esquentar...
-    Você está namorando?
-    Não exatamente. Tenho um grande amigo, mas a gente resolveu não namorar.
-    Ficando! Moderna você!
-    Pode-se dizer que somos “ficantes”. A gente sai quando dá, quando a gente tá afim. Não tem ciúmes. Cada um mora em sua casa, mas vez por outra passamos o final de semana juntos.
-    Como a gente fazia?
-    Não. Ele cozinha para mim. Eu lavo os pratos. A gente vai comer fora de vez em quando.
-    E ele é bom de cama?
-    Desencana!
-    É ou não é?
-    É diferente. A gente, quando fica junto, dá um tempo para saber o que o outro quer. Não tem essa de ficar contando problemas ou coisas boas que fizemos. A gente fica em paz e descobre o que ambos querem fazer. E o que fizer a partir daí é bem feito, pois era o que ambos queriam.
-    Eu que achava que você queria casar?
-    Acho que até queria, não quero mais. Dura bem no máximo dois anos, depois se aturam.
-    E eu achei que você estava magoada comigo!
-    Que nada! A melhor coisa que me aconteceu foi aquele pé na bunda! Vi que esperava coisas erradas dos homens. Que eles podem dar muito mais. Se não fosse com você, teria me casado de novo com outro qualquer. Agora não, vivo bem assim e se ficar sozinha, fico bem também.
-    Então tá. Eu só queria mesmo pedir perdão.
-    Tá perdoado. Tá bom assim. Um beijo.
-    Alô.
-    Laura, quantas ele dá?
-    Gilberto, deixa isso pra lá.
-    Quantas?
-    Sei lá. Quatro, cinco, às vezes, seis.
-    Tá me gozando? Ninguém consegue isso!
-    É que ele não gasta energia jogando futebol a tarde toda e depois tomando cerveja com os amigos. A gente, quando sai, não vai a rodízio, vai a restaurante japonês, toma vinho ao invés de cerveja...
-    Ah. Então é rico.
-    A gente racha a conta, cacete!. Esqueceu que eu ganho bem. Você que falava: “mulher minha não paga a conta”.
-    Mas seis! Quantos anos ele tem?
-    Para com isso.
-    É garotão, né? Quantos anos?
-    Quarenta e seis.
-    Quarenta e seis!
-    Olha, meu celular está tocando. Outra hora a gente se fala. Beijo.

-    Alô!
-    Oi Laura.
-    Pô, Gilberto. Que horas são?
-    Meia-noite. É que eu não conseguia dormir.
-    Que foi agora?
-    Quatro, cinco, seis?!
-    Desencana. Boa noite!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O que você vai ler no carnaval?


Há muitos verões meu carnaval era de folia. Naquela época eram quatro noites no salão, às vezes cinco, pois em alguns lugares tinha um pré-carnaval na sexta; e duas matinés em que as meninas levavam seus irmãos menores. Não se trabalhava na segunda, e na quarta só depois do almoço. Não tinha carnaval da TV, só alguns flashes de um ou outro baile no Rio.

Era comum namorados e namoradas terminarem  para brincar o carnaval sozinhos, ou melhor, com outros.

Rolava umas bebidas, um pouco de lança-perfume, alguns domésticos, chamados Loló, e droga se tinha era pouca e escondida. Alguns blocos, fantasias e muitas brigas. Foi-se!

Onde moro uma semana antes tem um baile de máscaras e no Bar do Bosque do Clube, duas noites tem música ao vivo, algumas até de carnaval das antigas.

Por isso, pensei no que ler no Carnaval. Os dias são calmos, quase tudo funciona em ritmo lento.

Pensei também em criar um evento no facebook para os amigos se sentirem estimulados a ler e postar também algumas dicas de livros e leitura, uma espécie de uma campanha que abrangesse em especial professores. Então, se você se animar também aqui está o endereço da página: https://www.facebook.com/events/1422911647947062.


A minha primeira sugestão, se você é leitor habitual, leia ou releia um clássico. Estou relendo quase tudo de Machado de Assis e estou impressionado com as novas descobertas. Ele é muito melhor do que minha memória juvenil guardou. Agradeço muito aos professores que me fizeram lê-lo pois o prazer da releitura é muito maior que o da primeira vez.

Ainda pra você, leitor habitual, talvez a leitura de um dos novos autores que vem surgindo ou alguns menos conhecidos.

O ganhador do prêmio Jabuti, Menalton Braff, é uma boa pedida.


Se você faz parte da maioria que diz que gosta de ler e lê pouco, sugiro leituras mais leves: os contos curtos de Luís Fernando Veríssimo em “Comédias da Vida Privada” ou “Analista de Bagé”; talvez o tradicional “O Homem que sabia Javanês” de Lima Barreto. Na linha das histórias curtas, há também “Os 100 melhores contos do século XX”.


Àqueles que gostam de conselhos e psicologia “Não Faça Tempestades em Copos D’água” (Richard Carlson) ou o clássico dos clássicos em filosofia “O mal-estar na civilização” de Freud são leituras que valem a pena.



Eu comprei um tablet de 10 polegadas. Achei que ia sentir falta do papel... Que nada! Estou adorando carregar comigo centenas de livros. Graças ao tablet li cerca de 20 livros em 2013. Se você já aderiu em procure por “Lê Livros” no google e você vai se surpreender com o tanto de livros disponíveis, boa parte deles de graça.

Com os arquivos no formato .EPUB você pode virar a página com o dedo e ainda escolher o tamanho da letra, ótimo para quem precisa de óculos para ler de perto.


Fica porém um conselho para o ano todo: não leia demais!
Assim como comida, é preciso digerir. Troque livros com os amigos, converse sobre o que leu. Quatro bons livros no ano são suficientes, se não der, dois livros de boa qualidade está muito bom. Mas leia. Leia literatura.


Se mesmo assim, você não tiver tempo, faça parte de nosso evento no facebook: vou postar lá contos curtos e poemas. É de graça e não faz mal a ninguém.


                                                              Bom carnaval!