segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O que você vai ler no carnaval?


Há muitos verões meu carnaval era de folia. Naquela época eram quatro noites no salão, às vezes cinco, pois em alguns lugares tinha um pré-carnaval na sexta; e duas matinés em que as meninas levavam seus irmãos menores. Não se trabalhava na segunda, e na quarta só depois do almoço. Não tinha carnaval da TV, só alguns flashes de um ou outro baile no Rio.

Era comum namorados e namoradas terminarem  para brincar o carnaval sozinhos, ou melhor, com outros.

Rolava umas bebidas, um pouco de lança-perfume, alguns domésticos, chamados Loló, e droga se tinha era pouca e escondida. Alguns blocos, fantasias e muitas brigas. Foi-se!

Onde moro uma semana antes tem um baile de máscaras e no Bar do Bosque do Clube, duas noites tem música ao vivo, algumas até de carnaval das antigas.

Por isso, pensei no que ler no Carnaval. Os dias são calmos, quase tudo funciona em ritmo lento.

Pensei também em criar um evento no facebook para os amigos se sentirem estimulados a ler e postar também algumas dicas de livros e leitura, uma espécie de uma campanha que abrangesse em especial professores. Então, se você se animar também aqui está o endereço da página: https://www.facebook.com/events/1422911647947062.


A minha primeira sugestão, se você é leitor habitual, leia ou releia um clássico. Estou relendo quase tudo de Machado de Assis e estou impressionado com as novas descobertas. Ele é muito melhor do que minha memória juvenil guardou. Agradeço muito aos professores que me fizeram lê-lo pois o prazer da releitura é muito maior que o da primeira vez.

Ainda pra você, leitor habitual, talvez a leitura de um dos novos autores que vem surgindo ou alguns menos conhecidos.

O ganhador do prêmio Jabuti, Menalton Braff, é uma boa pedida.


Se você faz parte da maioria que diz que gosta de ler e lê pouco, sugiro leituras mais leves: os contos curtos de Luís Fernando Veríssimo em “Comédias da Vida Privada” ou “Analista de Bagé”; talvez o tradicional “O Homem que sabia Javanês” de Lima Barreto. Na linha das histórias curtas, há também “Os 100 melhores contos do século XX”.


Àqueles que gostam de conselhos e psicologia “Não Faça Tempestades em Copos D’água” (Richard Carlson) ou o clássico dos clássicos em filosofia “O mal-estar na civilização” de Freud são leituras que valem a pena.



Eu comprei um tablet de 10 polegadas. Achei que ia sentir falta do papel... Que nada! Estou adorando carregar comigo centenas de livros. Graças ao tablet li cerca de 20 livros em 2013. Se você já aderiu em procure por “Lê Livros” no google e você vai se surpreender com o tanto de livros disponíveis, boa parte deles de graça.

Com os arquivos no formato .EPUB você pode virar a página com o dedo e ainda escolher o tamanho da letra, ótimo para quem precisa de óculos para ler de perto.


Fica porém um conselho para o ano todo: não leia demais!
Assim como comida, é preciso digerir. Troque livros com os amigos, converse sobre o que leu. Quatro bons livros no ano são suficientes, se não der, dois livros de boa qualidade está muito bom. Mas leia. Leia literatura.


Se mesmo assim, você não tiver tempo, faça parte de nosso evento no facebook: vou postar lá contos curtos e poemas. É de graça e não faz mal a ninguém.


                                                              Bom carnaval!



quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ideias que não se criam



Tanto o cientista quanto o jogador de futebol têm ideias. Os gênios têm grandes ideias; os craques, pensamentos rápidos. Rápidas ou grandes, em alguns casos, elas se mostram geniais.
Sabe aquela jogada que surpreende? Que pega desprevenido o adversário? Que arranca aplausos da platéia? Muitas vezes até dos adversários!
Será que essas jogadas têm algo em comum com aquelas teorias complexas que levam a um Prêmio Nobel?
Têm sim: Ambos, o craque e o gênio, são narradores de histórias. Veem a sua frente dezenas, centenas, milhares de cenários e desenvolvem breves narrativas para cada um deles baseados em seus conhecimentos, experiências anteriores e muito treino, observação e obstinação.
A diferença entre eles e o perna-de-pau é que alguns dos possíveis caminhos mostram-se inviáveis. São rapidamente abortadas. São ideias que não se criam.
Um cientista, para desenvolver uma teoria, vê cenários que permitem dizer de onde viemos, onde estamos e aonde vamos. O craque, antes mesmo de lhe chegar a bola aos pés, vê a posição presente de cada adversário, de seus companheiros e onde eles estarão no próximo segundo para resolver esta fantástica equação do que fazer com a bola.
Já as pessoas comuns, tanto em bola quanto ciência, não são boas em ver cenários e menos ainda em desenvolver narrativas para se chegar ao cenário possível ou desejável.
Basicamente o que diferencia o gênio do parvo é a capacidade de abstração, tanto para ver possibilidades quanto para criar histórias para chegar a elas.
Em educação existem uma série de conhecimentos técnicos e acadêmicos necessários para sair da mediocridade, mas nenhum é mais importante que a capacidade de abstração, seja para vislumbrar cenários ou para criar narrativas viáveis. 
E a melhor forma de se chegar a isso é ler boa literatura.
Isso mesmo, Machado de Assis, Saramago e outros tantos fariam mais por sua inteligência que qualquer outra coisa que você possa imaginar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Oito do Três


Essa data sempre foi, e sempre será, um dia especial na vida dessas mulheres: uma porque nasceu neste dia, a outra, elas ainda não sabem, morrerá. E isso marcará a vida da mais nova, não por nascimentos, mortes ou quaisquer coisas mais que possam ser comemoradas neste oito do três.
Anna Adélia, nome dado em homenagem às duas avós, juíza, aluna brilhante da São Francisco, sempre deixou nítido seu rastro por onde quer que passasse, fosse pela beleza e simpatia; fosse pela inteligência e educação. Don’Anna, como todos a chamavam, aos oitenta e sete anos, bem vividos, segundo ela mesma, cinco filhos, onze netos, já não goza de tanta saúde, mas insiste.
-  Don’Anna. Como vai? Sempre dando susto na gente.
-  Oi minha filha. Esperava por você. Não posso ir enquanto não falar com você!
-  Vó. Tem que esperar pelos bisnetos ainda.
-  Você demorou muito. Não vai mais dar tempo. Dê um copo d’água e ajude-me a sentar.
    Isso feito, a velha acomodou-se, tomou a água e como quem, assim como eu e vocês, já    
    soubesse o final da história, apressou em começar:
-  Você está bem minha querida? Tem vindo pouco me visitar.
-  Estou ótima, Don’Anna! Tenho tido pouco tempo: há muito trabalho para fazer, além disso, acho que minha mãe lhe contou, estou construindo uma casa, escrevi um livro...
-   Então ainda lhe faltam a árvore e o filho, ou melhor, os filhos!
-   É! Vó! Mas os maridos não estão mais fáceis como no seu tempo...
-  Eles nunca foram fáceis. Homens são e sempre serão difíceis. São animais medrosos e assustados. Difícil conquistá-los, difícil domá-los.
-  Acho que eles se assustam mais ainda com as mulheres modernas: inteligentes, decididas, independentes...
-  Você sabe dançar?
-  Sei, Don’Anna. Mas é difícil um homem que saiba dançar bem.
-  Filha, quem tira para dançar é o homem e, por melhor que você saiba dançar, é ele quem conduz. Se você tentar conduzi-lo, terá os pés pisados e uma noite horrível.
-   Sei... – Disse refletindo enquanto sua avó continuava.
-  No amor quem conduz também é o homem. Em ambos os casos, nossa condução é sutil, não se faz notar. O homem precisa acreditar nessa sua condução para ter coragem e seguir em frente. Ele, bem estimulado, será o provedor de tudo que você precisar. Cabe a você, apenas indicar o caminho.
-   Sei...
-  Não há necessidade de disputas. Aprenda e ensine o homem a entrar em sintonia, em comunhão, no sentido exato desta palavra, e, juntos, serão um só. Aí não haverá mais condutor e conduzido. Como já dizia a minha avó, o homem é a cabeça...E a mulher o pescoço.
-   Sei...
-  Mulheres fortes são uma coisa, mulheres agressivas outra. O feminino é suave. Falta às empresas um caráter feminino, falta ao mundo características femininas. Portanto, ao trabalhar empreste este caráter ao que faz. O mundo masculino impôs às mulheres uma armadilha: que para serem bem sucedidas, deverão ser iguais aos homens. Mulheres não são homens. Um homem casado e pai de família passa bem uma semana trabalhando fora, uma mulher não: ela sofre, pois sabe que precisam dela.
-   Sei...
-  Poucas mulheres podem viver sem filhos. Filhos precisam de um pai. Vocês trabalham, trabalham e depois se culpam. Ache um emprego feminino, tenha filhos, eduque-os e seja feliz.  
-   Sei...
-  Já falei o que tinha para lhe dizer. Por favor, minha querida, agora se vá que preciso descansar. Faça isto por nós!

Don’Anna esperou a neta ir, pediu à enfermeira que a deixasse dormir sem remédios até o dia seguinte. Não acordou mais.
Anna Adélia despediu-se sem choro. Morria ali uma mulher e tanto, que lhe permitira ser o que era hoje e, finalmente, o que poderá ser amanhã, sem que deva a outros satisfações sobre seu sucesso. 
Demitiu-se como juíza, passou a trabalhar como advogada em meio período, voltou a pintar e, pasmem, a costurar.  
 Ah! E a freqüentar mais os bailes para descobrir quem a soubesse conduzir.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Justiça


A minha primeira lembrança sobre justiça foi aos dez anos em uma noite fria de junho...

Tudo, porém, começou bem antes: ainda muito pequeno, eu nem andava, em uma noite meus pais e irmãos, na luta pela posse de terras, foram assassinados. Fui o único a sobreviver. Contaram-me, não me lembro, que fui encontrado em um buraco dentro da casa, coberto de terra, protegido por uma bacia de lata que não me deixava sufocar.
Morávamos na pequena Bocaina, lá pelas bandas do Jahu. Não se tendo notícias de nenhum parente vivo, Dona Ingrid Solber Justus e o Seo Alcides Justus, o homem mais rico de toda região, levaram-me para a casa deles e lá eu fui criado entre seus sete filhos. Tonico, o caçula, tinha a minha idade. Tirando Mildred, todos os outros eram homens.
Dona Ingrid foi quem me deu os primeiros ensinamentos de como me comportar e, aos seis anos, as letras iniciais. Excluído de quase todas as brincadeiras, gostava de ficar junto dela. Ela tocava piano e gostava muito de ler. Um dia me disse: “Daqui cinqüenta anos você será mais ou menos a mesma pessoa que é hoje, menos pelos livros que ler e os amigos que fizer”. Dormi com esta frase por muitos anos e, ali, sem saber, ela me iniciava na filosofia. Eu, como podia, com educação e boas maneiras, retribuía tudo que ela me dava. No primário era o melhor aluno da classe, inclusive melhor que o Tonico e os outros meninos ricos.
Mas a vida, injusta como sempre, levou cedo Dona Ingrid: no parto de uma filha temporã, ela se foi, deixando a todos que gostavam dela, principalmente eu e a pequena Simone, que foi criada por uma empregada da casa. Dela ainda guardei mais uma frase de quando apanhava na escola: “Quem bate, esquece; quem apanha, jamais”. Sem ela por perto, nos momentos difíceis, eu me lembrava do que ela me dizia.
O Bastiãozinho, filho do único médico da Bocaina, e o Tonico viviam aprontando e dando sustos em mim. Falavam que iam estudar na Capital, num tal de Largo do São Francisco. Tinha vontade de conhecer. Devia ser grande e largo. Assim passavam os dias e as noites.
Em uma noite fria de junho, dia 23, um sábado, eu tinha dez anos, era dia de São João, padroeiro da Bocaina, e ia haver uma grande festa junina lá na fazenda do Seo Alcides, perto do pequeno sítio em que eu nascera. Havia fogos, doces, fogueira e muita música.
Brincamos a noite toda e, no finalzinho, o Tonico e o Bastiãozinho vieram me chamar para ver o que acontecia ali perto e eu fui. Lá estavam vários amigos da minha classe. Eles me davam tapas e falavam que eu tirava notas boas, pois copiava as tarefas do Tonico e ele me passava cola nas provas. Eu argumentava que era mentira – e era mesmo, pois eu o ajudava a passar de ano. Mas não tinha acordo, eram tapas e chutes e o Tonico sem em socorrer.  Amarram-me então a uma árvore e decidiram fazer um julgamento. Fui julgado e condenado. A pena seria pôr fogo na árvore. Saíram para buscar querosene e nunca mais voltaram. Eu, injustiçado, chorava. Passei ali a noite toda. Só fui encontrado pela manhã por uns peões que começavam a lida matutina. Deram-me comida e cuidaram de mim no final de semana. Só me devolveram à casa do Seo Alcides no domingo à tardinha. Quando Seo Alcides quis saber por onde andara, vi o Tonico e o Bastiãozinho brincando e, com medo, contei que me perdi e fiquei pela fazenda. Nunca me esqueci desta história e de outras tantas que aconteceram naquela época. Lembro-me das professoras e quase de todos os alunos das classes; de cada empregada da fazenda, de cada noite sem dormir...
No ano seguinte fui mandado para o colégio interno em Campinas e nunca mais voltei à Bocaina. Bom aluno, sem família, ficava só nos fins de semana e nas férias. Meu passatempo era a leitura: “Cada livro vale por um mês de escola”, dizia Dona Ingrid. Finalmente, aos dezessete anos, pude conhecer o tal Largo de São Francisco. Esperei para ver se encontrava por lá o Tonico e Bastiãozinho, mas por lá nunca deram as caras.
Com as frases de Dona Ingrid segui a vida: advogado, promotor, juiz e, finalmente, Ministro do Supremo Tribunal – amigos e livros, nem sempre nesta ordem.
Na minha posse, por coincidência, passeando por Brasília, estava o prefeito da Bocaina, o filho do Bastiãozinho. Quando soube que eu também era da Bocaina, não pensou duas vezes: “Vamos fazer uma grande festa em sua homenagem!”.
Neste clima, de recordações, foi que voltei à Bocaina. A banda da cidade, que parecia nada ter mudado com o tempo, tocava logo na entrada da cidade; as ruas ainda eram de paralelepípedo; seo Alcides já havia morrido, mas vi na praça central um busto em sua homenagem. Dos filhos, apenas Simone Justus morava lá. Sobraram ali, porém, alguns de meus conhecidos de infância. Neste momento eu me senti orgulhoso, pois pobre, simples e humilhado, acusado de mentiroso, saí daquele lugar. Podia finalmente provar que não colava na escola, que aprendi, cresci e subi por méritos. O meu cargo e as homenagens eram provas incontestáveis disto. Finalmente seria absolvido.
Após as homenagens fui falar com o Bastiãozinho e outros garotos que participaram de meu julgamento. Todos me cumprimentaram e, em tom de brincadeira, falei da história de muitos anos. Ninguém se lembrava, nem do julgamento, nem de mim. Eram sinceros. Eu... eu me lembrava perfeitamente, de cada cena, de cada detalhe, mas eles não.
Certa estava Dona Ingrid: quem bate, esquece; quem apanha, não!