quinta-feira, 16 de junho de 2011

Justiça


A minha primeira lembrança sobre justiça foi aos dez anos em uma noite fria de junho...

Tudo, porém, começou bem antes: ainda muito pequeno, eu nem andava, em uma noite meus pais e irmãos, na luta pela posse de terras, foram assassinados. Fui o único a sobreviver. Contaram-me, não me lembro, que fui encontrado em um buraco dentro da casa, coberto de terra, protegido por uma bacia de lata que não me deixava sufocar.
Morávamos na pequena Bocaina, lá pelas bandas do Jahu. Não se tendo notícias de nenhum parente vivo, Dona Ingrid Solber Justus e o Seo Alcides Justus, o homem mais rico de toda região, levaram-me para a casa deles e lá eu fui criado entre seus sete filhos. Tonico, o caçula, tinha a minha idade. Tirando Mildred, todos os outros eram homens.
Dona Ingrid foi quem me deu os primeiros ensinamentos de como me comportar e, aos seis anos, as letras iniciais. Excluído de quase todas as brincadeiras, gostava de ficar junto dela. Ela tocava piano e gostava muito de ler. Um dia me disse: “Daqui cinqüenta anos você será mais ou menos a mesma pessoa que é hoje, menos pelos livros que ler e os amigos que fizer”. Dormi com esta frase por muitos anos e, ali, sem saber, ela me iniciava na filosofia. Eu, como podia, com educação e boas maneiras, retribuía tudo que ela me dava. No primário era o melhor aluno da classe, inclusive melhor que o Tonico e os outros meninos ricos.
Mas a vida, injusta como sempre, levou cedo Dona Ingrid: no parto de uma filha temporã, ela se foi, deixando a todos que gostavam dela, principalmente eu e a pequena Simone, que foi criada por uma empregada da casa. Dela ainda guardei mais uma frase de quando apanhava na escola: “Quem bate, esquece; quem apanha, jamais”. Sem ela por perto, nos momentos difíceis, eu me lembrava do que ela me dizia.
O Bastiãozinho, filho do único médico da Bocaina, e o Tonico viviam aprontando e dando sustos em mim. Falavam que iam estudar na Capital, num tal de Largo do São Francisco. Tinha vontade de conhecer. Devia ser grande e largo. Assim passavam os dias e as noites.
Em uma noite fria de junho, dia 23, um sábado, eu tinha dez anos, era dia de São João, padroeiro da Bocaina, e ia haver uma grande festa junina lá na fazenda do Seo Alcides, perto do pequeno sítio em que eu nascera. Havia fogos, doces, fogueira e muita música.
Brincamos a noite toda e, no finalzinho, o Tonico e o Bastiãozinho vieram me chamar para ver o que acontecia ali perto e eu fui. Lá estavam vários amigos da minha classe. Eles me davam tapas e falavam que eu tirava notas boas, pois copiava as tarefas do Tonico e ele me passava cola nas provas. Eu argumentava que era mentira – e era mesmo, pois eu o ajudava a passar de ano. Mas não tinha acordo, eram tapas e chutes e o Tonico sem em socorrer.  Amarram-me então a uma árvore e decidiram fazer um julgamento. Fui julgado e condenado. A pena seria pôr fogo na árvore. Saíram para buscar querosene e nunca mais voltaram. Eu, injustiçado, chorava. Passei ali a noite toda. Só fui encontrado pela manhã por uns peões que começavam a lida matutina. Deram-me comida e cuidaram de mim no final de semana. Só me devolveram à casa do Seo Alcides no domingo à tardinha. Quando Seo Alcides quis saber por onde andara, vi o Tonico e o Bastiãozinho brincando e, com medo, contei que me perdi e fiquei pela fazenda. Nunca me esqueci desta história e de outras tantas que aconteceram naquela época. Lembro-me das professoras e quase de todos os alunos das classes; de cada empregada da fazenda, de cada noite sem dormir...
No ano seguinte fui mandado para o colégio interno em Campinas e nunca mais voltei à Bocaina. Bom aluno, sem família, ficava só nos fins de semana e nas férias. Meu passatempo era a leitura: “Cada livro vale por um mês de escola”, dizia Dona Ingrid. Finalmente, aos dezessete anos, pude conhecer o tal Largo de São Francisco. Esperei para ver se encontrava por lá o Tonico e Bastiãozinho, mas por lá nunca deram as caras.
Com as frases de Dona Ingrid segui a vida: advogado, promotor, juiz e, finalmente, Ministro do Supremo Tribunal – amigos e livros, nem sempre nesta ordem.
Na minha posse, por coincidência, passeando por Brasília, estava o prefeito da Bocaina, o filho do Bastiãozinho. Quando soube que eu também era da Bocaina, não pensou duas vezes: “Vamos fazer uma grande festa em sua homenagem!”.
Neste clima, de recordações, foi que voltei à Bocaina. A banda da cidade, que parecia nada ter mudado com o tempo, tocava logo na entrada da cidade; as ruas ainda eram de paralelepípedo; seo Alcides já havia morrido, mas vi na praça central um busto em sua homenagem. Dos filhos, apenas Simone Justus morava lá. Sobraram ali, porém, alguns de meus conhecidos de infância. Neste momento eu me senti orgulhoso, pois pobre, simples e humilhado, acusado de mentiroso, saí daquele lugar. Podia finalmente provar que não colava na escola, que aprendi, cresci e subi por méritos. O meu cargo e as homenagens eram provas incontestáveis disto. Finalmente seria absolvido.
Após as homenagens fui falar com o Bastiãozinho e outros garotos que participaram de meu julgamento. Todos me cumprimentaram e, em tom de brincadeira, falei da história de muitos anos. Ninguém se lembrava, nem do julgamento, nem de mim. Eram sinceros. Eu... eu me lembrava perfeitamente, de cada cena, de cada detalhe, mas eles não.
Certa estava Dona Ingrid: quem bate, esquece; quem apanha, não!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quase um filme americano

Eu tenho sorte: no bar lotado no sábado à noite há uma vaga bem em frente para meu vermelho importado da Alemanha. A vaga apertada é entre dois carros também importados. Eu tenho sorte e todos vão poder me ver descendo do meu carro vermelho importado e abrir a porta para minha nova garota alta loira e bonita.
Mesmo no bar lotado na noite quente de sábado há uma mesa para mim em um lugar que todos podem me ver acompanhado de uma bela garota perfumada alta e bonita. Eu faço minha sorte: sou amigo do dono do bar e dou boas gorjetas para os garçons me arrumarem uma mesa na calçada para eu tomar um doze anos importado no calor nacional onde todos podem me ver acompanhado e eu posso ver meu lindo carro importado que dentro tem uma arma que me protege nestes dias inseguros quando todos querem tomar o que é meu.
O bar está movimentado de ricos em carros bonitos com moças bonitas. O meu carro importado vermelho é mais bonito e a minha moça alta de peitos grandes é mais gostosa. Todos olham para ela e meu carro importado onde dentro tem uma Taurus ponto 40 com treze balas no pente e uma na agulha.
Os três moços da mesa ao lado um preto e dois brancos olham para meu carro e minha garota alta com inveja. Só os ricos bem sucedidos como eu podem ter carros importados e moças bonitas mais altas.
Eles não se conformam e por isso se levantam e de arma em punho põem todos para dentro para roubar o que é nosso e o dinheiro de meu amigo suíço dono do bar. Eles gritam com todos e todos gritam e se calam. “Se desse tempo de pegar minha pistola”. Mas eu faço minha sorte: na confusão ligo para a polícia e rapidamente digo “Assalto na Casa do Café". Eles vão chegar logo e queimar esses putos no bar lotado. O ladrão preto vem em minha direção olha para minha garota gostosa e toma a chave do meu vermelho importado. A polícia vê tudo e não atira neles. A polícia não vai atrás deles. Se desse tempo eu mesmo queimava todos eles. Eu tenho vontade de bater no filho da puta do meganha prevaricador. Eu dou um murro na cara do corno que deixou os ladrões fugirem com meu carro importado vermelho da Alemanha e toda a grana do meu amigo importado da suíça e quem é preso sou eu!
Os ladrões fogem com meu carro importado e eu sou preso! Você são todos uns bostas incompetentes. Num país decente já teriam queimado esses filhos da puta e recuperado meu carro e a grana do meu amigo suíço. Vou embora deste país de merda de gente que não se protege. Vou pra Suíça. Vou pros Estados Unidos. Lá eles são ricos. Lá eles protegem os ricos que têm carros importados e namoram loiras altas de olhos claros.
Além de passar a noite na cadeia, tive que ouvir aquele major de bosta me dizer calmo: “O senhor queria que em pleno sábado à noite, em um bar movimentado, nós saíssemos dando tiros e correndo pela cidade atrás de bandidos, pondo a vida de um monte de gente em risco, apenas para recuperar o seu carro... que está no seguro?”.
"Porra! É claro que queria, major de bosta. Essa é a sua obrigação: proteger o que é meu, prender esses bandidos, matar esses putos". Se não me segurassem, eu mesmo pegava uma arma e ia caçar esses putos.
Mas não vou embora desta merda de país. Aqui eu faço minha sorte: sou rico, compro outro amarelo importado da Itália, o Bob me traz outra ponto 40 e arrumo outra loira mais bonita, mais alta que eu. Eu tenho sorte!



Ao André Sant’Anna
Pelo empréstimo de seu   
O vermelho importado de Noé
(100 melhores contos do Século XX)
 
 Referendo de venda de armas (out/2005)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Exposição Em Cantos

O ato de ler e escrever é quase sempre solitário, poucas são as oportunidades que leitores e escritores têm de conversar.
Os textos só têm sentido de ser, se apresentam algo que um leitor não viu ou não deu a devida atenção. Nesta exposição, além de você ver a visão de um escritor sobre temas do cotidiano, artistas plásticos olharam com atenção ao mesmo tema e reescreveram com sua arte e visão. Leia, releia e leia novamente cada texto, veja as ilustrações. Os textos não são textos, são vivências. As histórias, apesar de inventadas, são dúvidas.
Cada texto é uma pergunta, nunca uma afirmação: 
bem vindo à literatura.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O Juízo de Papai Noel


Aconteceu, como um dia acontece a todo mundo, de morrer Papai Noel. 
Julgou-se, de início, pelos seus atos aqui na Terra, que seria prontamente acolhido por Deus, pois, de certo, Satanás não havia de querer tal indivíduo perambulando pelo Inferno dando exemplos de bondade e consideração para com os outros.
Assim sendo, senso comum, ele se dirigiu prontamente ao Céu, devendo ser apenas um ato formal Deus pedir para que Lúcifer fosse avisado da chegada de mais uma alma ao Paraíso. Este, ou algum assessor menor, deveria apenas carimbar “RECUSADO” no prontuário do defunto.
Se bem ainda não sabem, mas um dia saberão, funciona mais ou menos assim: cada indivíduo, ou alma, se preferirem, dirige-se para onde julga ser merecedor. A outra parte, Deus ou o Diabo, é comunicada e, caso ache justo ser de seus domínios tal alma, faz reclamá-la. Vale ressaltar que a concorrência é acirrada. Caso não haja consenso e não havendo acordo na Junta de Conciliação, o indivíduo pode: (1) ir para o Purgatório, onde entra em uma longa fila de espera até que seu caso seja julgado e, com todos os recursos que têm direito as partes, leva uma eternidade; (2) voltar à vida afim de que seja reavaliada sua situação. Neste caso pode voltar em (A) mesma situação que saiu; (B) situação pior – para se recuperar; (C) situação melhor – para ver como se comporta com o que aprendeu em vidas anteriores; não se tendo claro um consenso sobre qual das situações, entre 2B e 2C, é pior; (3) ir para o Limbo, sendo que este último pode ser de duas espécies: (A) em um lugar que não se sabe ao certo onde é, não podendo assim se fazer uma melhor avaliação da pena; e (B) na própria Terra, onde a alma, em corpo físico, em forma humana, perambula entre os demais, nunca apresentando progressos no trabalho e demais situações cotidianas. Dizem, inclusive, que mais da metade dos viventes (mais da metade!), se assim os podemos chamar, é composta por almas condenadas em 3B.
Fato é que o Demo reclamou para si o Bom Velhinho e, quando chamado a dar seus motivos, falando direto com Deus, pois tal alma não poderia ser julgada por assessores de menor importância, perguntou-lhe o mais alto regente:

- Por que Vossa Senhoria acha que esta alma deve ir para o Inferno? – Pergunta Deus, convicto de sua vitória.

- Para ser breve, pois, embora habitemos a eternidade, o nosso tempo é curto, explico: o Bom Velhinho, Santa Claus, Papai Noel, Pai Natal, São Nicolau, como o chamam na Terra, o tempo todo foi um mau exemplo à humanidade (falava isso apontando para o velhinho, presente, ali sentado que, espantado, sentindo-se culpado, nada entendia). O Natal foi inventado, lá pelo ano 300 após o nascimento de nosso tão adorado Jesus (não se sabe se aqui havia ironia ou era sincero o seu tom), pela instituição que mais usa seu nome em vão. Usurparam dos povos nórdicos a data que comemorava o fim da mais longa noite do ano e o início da vitória do dia sobre a noite, 25 de dezembro, e Papai Noel, com uma mentira (pois todos sabem que Ele nunca poderia ter nascido nesta data) e muitos presentes, ajudou a consolidar a festa de natal. Eu poderia ainda falar muito mais, de pecados maiores e menores, da sua ligação com as forças capitalistas, maus tratos às renas, exploração de Duendes, a tentativa de iludir crianças, do estimulo à corrupção de menores que trocam o bom comportamento puro por presentes etc. etc. e tal. Mas vou só me ater a esses graves pecados iniciais, pois não haveria inferno suficiente para tantos pecados – concluiu o Demo, arfando inflamado.

Pensativo, Deus, que não suporta perder almas, pediu:
- Sei, sei! Realmente, olhando de seu ponto de vista o caso é grave. Entenda, porém, Vossa Senhoria, que estamos julgando uma instituição e sonhos, não uma simples alma igual a todas as outras. Neste sentido, apesar de não lhe tirar a razão, queria gentilmente pedir-lhe para que considerasse mandar, provisoriamente, o Bom Velhinho, de volta à Terra, de tal sorte que ele possa reparar os seus erros.

- E como Vossa Senhoria acha que ele deveria voltar para expiar esses graves pecados? E, principalmente, onde? Pois não há de voltar em um lugar qualquer. – concluiu o Diabo com um ar de satisfação.

Deus novamente se fez pensativo e, com um certo sorriso malicioso, de quem sabia minimizar derrotas, sem muitas escolhas, sugeriu:

- O lugar é fácil: o Brazil. Lá ele terá bastante trabalho e oportunidades de se recuperar. Quanto ao seu papel, vamos deixá-lo crescer, sem nossa interferência, para ver o que acontece.

- Eu topo! – falou o Demo, sabendo que a posse da alma seria agora apenas uma questão de tempo.

Apertaram-se as mãos e foram cuidar das tantas outras almas que por lá chegam todos os dias.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Jardim da Poeta

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A cidade havia crescido, as ruas de paralelepípedo tinham dado lugar ao asfalto, as casas antigas, ao comércio e prédios. No entanto, o Jardim de Baixo, que é como chamávamos a Praça da República, continuava igual, conservam-se, de minha infância, a Matriz e a Banca do Gaúcho. Mantive eu também o hábito de todo domingo cedo comprar o jornal local para ler os poemas de Armínia.
Nunca fui de reclamar das mudanças e do progresso. Em geral, gosto. Lamentava apenas a transformação da casa do outro lado da praça em prédio, pois nela havia as mais belas flores, tudo lá era mais: o verde mais verde, o vermelho mais vivo. Creio que o próprio Jardim de Baixo tinha certa inveja da quantidade de pássaros da pracinha particular daquela casa.
Quando piá (assim me chamava o Gaúcho), eu ia comprar o Jornal para o Vô Laerth, especialmente para ler os poemas de Armínia que, além do locais que citei, é a grande lembrança dos tempos de guri. Foi com seus poemas que aprendi a ler e, particularmente, peguei gosto pela música, poesia, literatura e arte. Vô Laerth musicava alguns versos da poeta e, no violão, cantava para mim. Lembro-me especialmente de um que conhecia cantado:

Você Indo
Você indo 
Leva o meu amor pra lá dos confins
Contemplar o luar. 
A vida uma dádiva me criou
Você passa, deixa graça em tudo
Fico mudo ao ouvir o seu dom natural
Sua mágica luz, sua música
Quantas canções de amor eu não fiz
Sons que perderam o tempo e o lugar
Ler o momento, deixá-lo seguir
Como o abrir de uma flor
Muda o tom do jardim
Quantas canções de amor eu não fiz
Porque não tinha você pra ouvir

Percebi que tudo tinha um porquê!
Não mais tinha Vô Laerth, nem a casa do jardim, mas ficaram a praça, a banca, a Matriz  e a coluna de poemas de Armínia, que já devia ser muito velha, mas, sem faltar um domingo, publicava um novo poema.
A casa agora era um prédio, os netos dos pássaros davam preferência à praça, exceto pelas flores de um apartamento do terceiro andar, em cujo jardim, de menos de um metro quadrado se avistavam as mais belas flores jamais vistas, nem na velha casa. Fiquei curioso por saber quem morava lá, mas nesses tempos modernos ninguém conhecia mais ninguém. Até que um morador antigo, como toda simplicidade do mundo disse: “A Dona Armínia mora lá. Depois que ela vendeu a casa para fazer o prédio, ficou morando lá”!
Atravessei a praça emocionado. Apesar da idade, imaginava-a bela por suas palavras, via a velhinha em algum vestido de chita florido, picinè antigo, cabelos presos, tomando chá ao entardecer em frente à praça. Tudo agora fazia sentido: a praça, a casa antiga, o jardim, as poesias, até o prédio com aquele tímido jardim ganhava uma lógica moderna. Eu só me perguntava por que não havia nenhum livro dela.
O interfone do apartamento demorou a atender. A voz da senhora do outro lado dizia que Armínia viajara. A resistência, só foi vencida depois de várias histórias de minha infância, do Vô Laerth, das compras dominicais de jornais, de vários nomes de poesias e, finalmente, depois de cantar “Você Indo” no interfone – a música de meu avô com a letra de Armínia eram a união perfeita. Nada superaria, porém, a emoção de conhecer Armínia e seus jardins, suas confusões de flores, sentimentos, cheiros, momentos, luzes e cores.
Tudo, porém, desmoronou ao abrir da porta do apartamento 32. A casa era velha e mal cuidada, a mulher, que insistia em se apresenta como “acompanhante” de Dona Armínia, era horrível e provavelmente sempre fora, pois guardava marcas de doenças e deficiências de infância. Constrangido com tudo, acomodado na sala, o único ponto que se destacava era o jardim da sacada, com flores belas e coloridas - perfeitas!
- Fiquei encantado com o jardim. Ele dá vida ao prédio, 
  empresta graça à vida! – falei tentando achar o que dizer.
Nisso, a velha, que percebia minha decepção, com um tom de quem sabia tudo que ia se passar naquela conversa, perguntou-me:
- Quer conhecê-lo?
E nos dirigimos à sacada. Era tudo artificial! A grama e as flores lindas eram de plástico. Tudo que eu queria era sair daquele lugar horrível correndo. A mulher, calma, pediu para que eu ficasse mais um momento:
- Meu jovem, a vida, às vezes, é cruel com a gente. Tanto em nosso nascimento, quanto no tempo que duramos. Alguns de nós talvez devessem morrer logo, outros tantos, bons e belos, deveriam durar mais. Mas a vida é a vida! E ela deve saber o que faz.
Sua voz ganhava belos tons e contornos e isso era tudo que eu via enquanto ela falava.
- Não queria que você subisse aqui, por motivos óbvios. Você os sabe agora. Perceba apenas que você pode tratar as coisas que recebe e devolvê-las ao mundo de outra forma. Não há como manter o jardim da casa velha, mas quem vê lá debaixo não precisa ver um prédio sem vida. Pra que mostrar a cara marcada, se a alma continua jovem? Assim são as flores, os sentimentos e a poesia. 
A senhora fez um pequena pausa antes de me encaminhar à porta e concluiu com um sorriso que amenizava minha culpa:
-  Ah! Se disser a alguém um dia que me conheceu, fale de flores e poesias.
Beijei a testa daquela bela mulher e lembrei-me da música de Armínia e Laerth. E, finalmente, entendi que tudo tinha um porquê!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pau Brazil

Lembro-me, de ouvir falar, dos Réis. Contos de Réis! Ainda acho bonito e engraçado quando escuto que algo custa 5 conto; conto mesmo, não ia para o plural. Conto de Réis. Circulou de 1692 até 1942, quando foi criado o Cruzeiro.


Vivi o tempo do Cruzeiro; do Cruzeiro Novo(1967); Cruzeiro, de novo (1970); Cruzado(1986); Cruzado Novo(1989); Cruzeiro, novamente (1990); Cruzeiro Real (1993); e, por fim, Real(1994), de novo - porque os Réis eram o plural de Real.

Cheguei a uma conclusão simples: o que atrapalha todos os planos econômicos são estes nomes sem sentido que dão à nossa moeda. Ele não pode ser assim escolhido ao acaso; tem que ter uma razão, um nome forte, com significado histórico e, ao mesmo tempo, ser simples, de fácil aceitação.


O “achamento” do Brasil se deu em uma quarta-feira, 22 de abril de 1500 e na quinta fomos batizados de Ilha de Vera Cruz; depois Terra de Santa Cruz e, finalmente, de Brasil; “devido a uma árvore avermelhada usada para tingir linhos, sedas e algodões, concedendo-lhes um suntuoso tom carmesim ou purpúreo, a cor dos reis e dos nobres”, a Caesalpinia echinata ou pau-brasil.


Creio que nenhum nome ficaria melhor para a nossa moeda que Pau-Brasil ou Pau-Brazil, para não haver problemas no exterior.


A outra grande vantagem é que já estamos acostumados e usamos esta moeda no dia-a-dia: um lanche, por exemplo, custaria P$ 5,00 ou popularmente falando cinco Pau!

Percebam que perderia o sentido aquela enorme quantidade de zeros, pois tudo custaria entre 1 e 999 paus. Uma calça custa cem Paus e um carro 30 Paus, ficando os zeros implícitos, sendo tudo mais simples, além de desestimular a inflação.

O governo poderia apelar para o orgulho nacional e o povo iria corresponder. Quando o ministro da economia viesse a público dizendo que devemos fazer sacrifícios para que o Pau suba, certamente toda população iria colaborar. Quando dissessem que teríamos que manter a alta do Pau em relação ao dólar, não haveria dúvidas que o Pau deveria sempre estar forte. Talvez apenas perca a coerência a expressão “tô duro” pra quando se está sem dinheiro, “tô mole” parece mais adequado!

Mesmo os humoristas terão o seu quinhão com alguns trocadilhos infames com expressões como “com quantos paus se faz uma canoa”, “pau pra toda obra”, “baixar o pau” etc.

Um último esclarecimento seria sobre os centavos: seriam chamados de Japas.

Assim um cafezinho custaria P$ 1,50 ou um Pau e cinqüenta Japas.

Bem, agora deixo pela imaginação de cada um as figuras que apareceriam nas notas e moedas.