terça-feira, 14 de setembro de 2010

Em Cantos

Em meu canto tem um canto
Em que canto o teu canto
Pranto pronto que encontro
Ponto a ponto eu me espanto
Com o ponto em que apontas
Em que canto de teu canto
Tu te encantas com meu canto
 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Livrai-nos de todo o mal

"Livrai-nos do mal”, reza o Pai Nosso, Mateus (6, 9-13). Mas, mais que crer e confiar em Deus, há de se dar-Lhe uma mãozinha. Em outras palavras, previna-se do mal.
Como o mundo “aumentou”, o mal não está mais apenas ao alcance de sua vista e de seus passos.  É, meu caro, o mundo, e o mal também, globalizaram-se. Ele não se resume mais aos seus vizinhos, amigos de escola e trabalho e um ou outro parente fora que costumávamos visitar, pois, além das distâncias físicas terem encurtado, o mundo tornou-se virtual. Seja para o bem ou para o mal, as pessoas estão mais próximas, encontram-se mais, suas vidas estão mais públicas.
Antes você conhecia de alguém, talvez um(a) pretendente, os pais, irmãos, notas da escola; agora muitos de seus “amigos” você nunca os viu pessoalmente. Alie-se a isso um grande teatro que proporciona a televisão e as novelas em particular: as pessoas não sabem o que dizem, mas sabem dizer; comportam-se como se fossem dirigidos, algo como se participassem de uma peça de teatro ou um reality show; não entendem a piada, mas sabem que é o momento de rir.
E como se prevenir disso?
Há alguns anos li um livro chamado Decifrar Pessoas (Reading People), escrito por uma advogada especialista em escolha de jurados para a defesa. Ela diz que todo mundo se entrega. Uma rápida leitura das pessoas, considerando, claro, vários fatores como roupa, cabelo, acessórios, gosto musical, hábitos do dia-a-dia, companhias (dize-me com quem andas...), ligações familiares e afetivas, emprego, fotos e frases em perfis públicos (Orkut, facebook, Twitter...) e tantas outras, dizem quem as pessoas realmente são. Há chances de se enganar? Claro que há, mas, em geral, engana-se quem quer ser enganado. Enganam-se os carentes, os desonestos, que querem tirar vantagem, os muito ingênuos, mas, aqui ou ali, podemos nos enganar todos nós.
Mas vai aí uma dica infalível: a melhor prevenção é a prevenir-se de si mesmo. Revise seu “perfil”, público ou não. Pergunte a você mesmo com quem você anda. Preste atenção ao que diz, de quem diz e como diz. Perceba seus assuntos: você fica falando de nada? (tempo, políticos, o assunto da moda dos jornais...); fala dos outros? (o assunto da moda nos jornais, do vizinho, de parentes...); ou fala de idéias e ideais? Procura usar bem seu tempo e seus recursos, para o bem? Mesmo sem esperança que haja um juízo final ou reencarnações, você tenta fazer e deixar um mundo melhor por onde passa? Faz diariamente um mea culpa? E, principalmente, tem respeito pelas coisas? Respeita a roupa que usa, a comida que come, os objetos vivos ou não que fazem parte de sua vida? Respeita seu corpo quanto ao que come? Quanto às horas de repouso que ele precisa? Tem respeito por amigos e familiares quando neles pensa? Perdoa suas ofensas?
É isso aí:
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do mal. Amém!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sugestões Eleitorais

Sei que a maioria está cansada de eleições, de horário gratuito e de políticos. Não é pra menos. Conversando aqui e ali, vi que muitos defendem um candidato, outros, outro; uns dizem que eleição não adianta de nada, pois, no final das contas, todo político depois que chega ao poder trabalha apenas para se manter lá. Principalmente, o que percebi, é que a maioria não queria mais votar mesmo, não fosse obrigatório. E essa é uma posição que tende aumentar.

Modestamente, depois de conversar com amigos, acho que algumas regras deveriam mudar para que as eleições sejam mais justas e reflitam a opinião do povo ou, ao menos, imprevisíveis e divertidas.
A primeira medida seria tornar as eleições não obrigatórias, vota quem quer, mas quem votar teria suas vantagens. Poderia, por exemplo, concorrer a prêmios. E para tornar mais interessante e imprevisível a eleição, dou a seguinte sugestão: os eleitores do candidato menos votado concorreriam a casas, carros e eletro domésticos. Valeria apenas para os cargos do executivo (Prefeito, Governador e Presidente). Por exemplo, aqueles que votaram no governador menos votado, concorreriam a uma casa, 5 carros e diversos televisores, geladeiras etc. O efeito colateral desta medida é que os interessados prestariam atenção aos concorrentes. Queria ver assim as previsões do Ibope.
Uma parte dos cargos do legislativo (Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal e Senador), digamos 25%, seriam escolhidos por sorteio. Quando tira seu título, o Eleitor decide se aceita concorrer ou não. Imagine-se, caro leitor, você está lá votando e a urna começa a apitar e sai a mensagem que você foi eleito para Deputado Federal, com salário, assessores, passagens aéreas e demais verbas de representação. Mas, atentem, quem se candidatou não pode ser sorteado. Convenhamos, melhoraria bem o nível, não? Tome como exemplo a Câmara de uma cidade com vinte vereadores. Cinco entrariam ao acaso.
Os votos poderiam deixar de ser secreto, desta forma quem votou no Candidato poderia referendá-lo... ou não. Uma espécie de desvoto que deselegeria aqueles que não correspondessem. Já pensou no medão dos eleitos?
Mas a melhor de todas é o voto contra. Funciona assim: você já vota a favor de um candidato (ou branco, ou nulo). Agora, além de votar a favor de um, votaria contra outro. Explico: você votaria em A para Presidente e contra B. O resultado final seria o saldo de votos obtidos pelo candidato. E mais, se o candidato ficar com saldo negativo, ele já entra nas próximas eleições com esse saldo, seja lá o cargo que concorra. Perceba que muitos políticos já teriam desistido há muito. O slogan de alguns seria: “Ajude-me a zerar os meus votos”. Os partidos também seriam mais sérios: caso você não saiba, o número de cadeiras no legislativo é proporcional aos votos do partido, assim, com os votos negativos, os partidos não lançariam vários dos candidatos que temos hoje.
Seria incluído para todos os cargos a opção NDC (Nenhum Desses Candidatos) com o número 0 (zero). Esta alternativa contaria como menos um voto para todos os candidatos àquele cargo. Há quem sugerisse que a sigla fosse NDFDP ou VTAPQP e outros tantos que é melhor nem citar.


Agora, talvez você me pergunte: “Você acha mesmo que essas medidas melhorariam?”.
Não. Sinceramente, acho que não. Mas, ao menos, durante um tempinho, riríamos deles, assim como eles se divertem às nossas custas.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Fusca Verde

Outro dia meus filhos apareceram com uma novidade (eles sempre têm uma): quem visse um fusca verde poderia beliscar o outro e fazer um desejo. Rapidamente pensei, nesses tempos em que o governo brinca de Robin Hood ao contrário, quando carro financiado em até 80 meses é mais barato que à vista!, quem vai encontrar um fusca, ainda mais verde, rodando por aí? Ledo engano, caro leitor. Ledo engano.
Mal feito o trato, eu conduzindo meu carro, cada um viu um, levei dois beliscões e eles tiveram seus desejos secretos. Andando pelas ruas, os fuscas verdes começaram a brotar de todos os lugares, as pencas, nos mais variados tons, inclusive alguns pastéis duvidosos que geraram discussões ópticas.
Com o tempo começamos memorizar onde havia fuscas verdes em estacionamentos, garagens, ruas e tudo mais. Houve quem quisesse levar alguma vantagem, sabendo os lugares, anunciando o dito fusca antes que fosse visto. Mas, civilizados, estabelecemos regras que vigoram bem.
É claro, também, que eu, como motorista oficial, posso escolher os caminhos que levam de um ponto a outro da cidade, mas nem sempre isso se apresenta como ganho, já que filhos têm olhos e ouvidos melhores para o que querem ver e ouvir.
Veio mais uma novidade: fusca rosa, dez beliscões e dez desejos!
Eu, para dar um pouco mais de emoção, sugeri que um fusca preto anulasse os desejos ainda não concedidos, mas minha filha prontamente respondeu: “Cê tá louco, pai?” – com um ar perplexo que quase fez com que me sentisse mal.
O mais incrível da história é que, sempre que me lembro de fazer o desejo, e tem alguém do lado beliscável (cuidado, cuidado!), funciona, acontece! É fato que nenhum de nós, até onde eu saiba, pediu para ganhar na mega ou encontrar o grande amor. Mas quase todos os desejos que fiz, aconteceram ou, estou certo, vão acontecer.
Apesar de passar a maior parte do dia sentado em minha sala trabalhando, é comum ver mais de dez fuscas verdes por dia, às vezes quinze ou vinte! Contando com branco, amarelo, azul, ocre-mararajó, vermelho... somam uma quantidade inimagináveis de fuscas que existem aqui e nas demais cidades.
Conversando, chegamos a algumas conclusões: há mais fuscas verdes entre um bairro e outro do que imagina sua vã filosofia, basta apenas querer vê-los; desejos bem formulados são (quase) sempre atendidos; e pôr fuscas pretos na brincadeira não é um bom negócio (crianças são sábias!).
Portanto, meus caros, fica a sugestão: atenção aos fuscas verdes – eles existem! Agora, fusca rosa... Fusca rosa é outra coisa.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Como começar um texto


Há dois grandes problemas para quem escreve: começar e, principalmente, terminar bem um texto.
Acredite, terminar é bem mais difícil, mas muitas vezes nem notamos, pois sequer conseguimos começá-lo.
Vou usar como exemplo o texto que escrevo agora: começa-se um texto pelo fim, ou seja, por o que se quer dizer.
Este texto é resposta a uma aluna que me fez a pergunta que me serve como título: “Eu me sento para escrever, mas fico enrolando. Quando vou começar, a idéias somem. Como faço para começar um texto?”.
Eu me pus a pensar em quando quero escrever, no que me motiva. Em geral tenho uma idéia ou necessidade que me guia, que serve de inspiração; penso no que sei sobre o assunto, ordeno mentalmente esses pensamentos; penso em quem iria ler o texto e como prendê-lo, primeiro com o título e, em seguida, no primeiro parágrafo com algo que faça meu leitor surpreender-se e/ou pensar junto comigo (veja o título e o primeiro parágrafo); a partir daí desenvolvo a idéia tentando fazer o leitor seguir junto de mim.
Se você está acompanhando meu raciocínio agora, significa que tive êxito e meu texto está ficando bom, caso contrário...
Note que o título prende quem tem a necessidade de escrever e depara com o problema de sair da inércia frente ao computador ou o papel. Em seguida, o texto apresenta outro grande problema para quem começa escrever, como e quando terminar o que está escrito.
Vamos pensar juntos: qual o objetivo de um texto? É o começo? O fim? Ou o título? Você entende do que está escrevendo? Se não sabe as repostas, sabe ao menos a perguntas certas? (Releia as perguntas e pense um pouco antes de prosseguir).
Respondendo essas perguntas, é fácil perceber que tanto o começo como o fim do texto são bons acessórios para prender o leitor e fazê-lo se lembrar do que foi dito mais tarde, assim como um bom título. Porém, o mais importante é seu conteúdo e as formas de “convencer” o leitor.
Note agora, caro leitor, que acabei de contradizer o que disse no primeiro parágrafo! Por quê?
Porque acredito que o começo e o fim apresentam dificuldades por nos faltarem idéias e conteúdos para escrever. Só isso!
Vou fazer um resumo: tenha um tema (seu ou proposto por outro); pense e converse um pouco sobre a idéia (veja se você tem realmente algo a dizer que dê algum acréscimo a alguém); pense em possíveis públicos para seu texto; o título e primeiro parágrafo servem para prender o leitor, mas tem que ser honestos e estarem presos ao conteúdo; e o fim deve apresentar algo que surpreenda (quando possível) ou marque o texto para que o leitor possa lembrar-se com prazer.
Agora, se meus conselhos aqui não servirem, siga os de Pablo Neruda: “Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias”.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

É quase tudo verdade!

Eu estava sentado pensando um título para meu livro. A velhinha, com ar de “sapeca”, olhava, olhava... Até que se aproximou:
- Gosto muito do que você escreve. Não perco um domingo no jornal.
Agradeci. E como ela ainda me olhava, perguntei:
- A senhora se lembra de qual gostou mais?
- Do da cobra... Foi como perdi a virgindade...
Segurei o riso, sem saber o que dizer.
- Nossa! Mas sua vida é agitada! – disse ela.
Entendia agora suas entrelinhas, o ar de “sapeca”.
- Não! Não! É tudo inventado. É tudo mentira.
- Inventado? Mentira? – Ela, decepcionada.
- Bem... Mais ou menos. É quase tudo mentira.
- Então... É quase tudo verdade! – com cara de quem sabia mais que mim que eu próprio.
Ela lera todos meus contos e sabia do que falava!
- É quase tudo quase mentira! – retruquei, procurando não perder o rebolado.
- Fica assim: é quase tudo quase verdade – concluiu , sem saber o presente que me dava.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Separaram-se

Ilustração: Carla Panini

Não há bem que sempre dure
Dizem
Separou-se parece mais preciso
Por partir de um a proposta
Mas, aceita...
Separaram-se
Quando um não quer...
Dois não amam
No mais largo sentido da palavra
Separaram-se
Não se desejaram mal
Nem bem, é verdade
Fracassos futuros fariam ver que
“o bem estava bem ao seu lado, meu bem”
Separaram-se com certo alívio
De chuva em tardes quentes
Separaram-se
Sem medir que na primeira manhã
Buscariam braços e bocas
Procurariam pernas e pés
Umas dentro
De outras em voltas
Separaram-se
Como óleo e água
Talvez nunca tenham se unidos
Separaram-se
De corpo e... (hum)
A alma demora um pouco mais
Separaram-se
Sem saber sextas e sábados
Tênues tardes de domingo
Separaram-se
Quiseram-se bem
Quiseram-se mal
E como
Não há mal que nunca acabe
Separaram-se